Pensamento sobre a causa e liberdade do homem

Regra geral o pensamento da maioria dos homens simplifica o conceito de causa. Reduz-o ao fato antecedente e único. No entanto, a causa, enquanto determinante de toda a realidade, é plural e complexa, não unitária e simples. 

Move-se a causa total, substância determinante de todos os efeitos (e o que vemos diuturnamente são efeitos), no mundo do tempo e do espaço. Sucessividade, é a disposição da causa, em suas infinitas variáveis, no tempo. E conectividade, malgrado as distâncias, no espaço.

Esse não conhecimento da causa, em sua complexidade, realiza-se qual uma derrapagem desastrosa no mundo da ignorância. Queremos saber do fato anterior, ao passo em que os anteriores ao anterior, e que o determinaram,  assustam nosso cérebro. Do mesmo modo, é sofrível relacionar acontecimentos separados e que não são vistos unidos, como os efetivos causadores.

A causa, em sua inteireza, se vista em suas conexões temporais e espaciais, volta a ser única. A substância da vida, o fluxo constante, a coisa em si, se nos debruçarmos sobre os pensadores como Espinosa, Heráclito, Kant,  a causa a maravilhosa síntese de Schopenhauer.

 A visão única do mais imediato ou próximo fragmento é o “véu das ilusões”, segundo a milenar sabedoria dos indianos. E caminhamos sempre sob esse véu, qual uma máscara que nos encobre e escurece os olhos. Sob esse véu, ao ver a luz do Sol refletindo-se sobre a areia, imaginamos tratar-se d’água. E uma corda jogada na praia como se fosse perigosa serpente.

Multiplicados os equívocos, vivemos de incompreensões e parco entendimento. Tudo embaralhado para o pior, não sabemos compreender, resolver e sobretudo perdoar.

Daí a necessidade de impactos grandiosos e dolorosos, como o do atual momento, para que os seres que remanescem no mundo o entendam e entendam a si próprios. Ainda sim, parcialmente, enquanto não aperfeiçoamos nosso entendimento. Na expressão de Schopenhauer, tudo é dependente do entendimento. “Conhecer a causalidade é sua função exclusiva, sua única força, e se trata de uma poderosíssima força…”

Claro, estamos no reino da filosofia, cujo curso foi abolido de nossos cursos médios e até mesmo de seu culto nas Faculdades de Ciências Humanas. Dessa ignorância da verdade profunda, emerge, mais ainda na sociedade brasileira, a incapacidade de existir em grupo. E quando vemos as mentiras deliberadas proliferar nas redes “sociais”, amarguramo-nos sob a tristeza implacável de uma mata espinhosa e selvagem. O desconhecimento da causa é a causa de um mundo desconexo.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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Bruna Lyra Raicoski

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