O que percebo da história passada e futura de meu País

O Brasil é uma incógnita. Essa a minha impressão e, pelo que percebo, de muitos de meus compatriotas, inclusive dos mais cultos.

Vivemos num momento em que se pode aquilatar da importância sobre essa questão.

Antes do governo Temer e Bolsonaro, e antes de vir a público a destruição da esquerda no mundo, operada pelo amor ao patrimônio pessoal e grupal de nosso Partido dos Trabalhadores, mais decepcionante que o Partido Trabalhista Britânico, que exsurgiu livre, bravo e valente, para depois integrar-se à estrutura do sistema dominante.

Posso perceber que, se todos vivem um mundo de aparências, sombras projetadas de uma caverna, segundo a tradição filosófica grega guiada pela lavra de Platão e sua academia, nosso mundo – brasileiro – foi o mais aparente e ilusionista de todos.

Sempre fomos um povo dominado, que aceitou a dominação imposta pelos dominantes, seja estrangeiro – Portugal e Holanda, esta por muito pouco tempo, seja pelos dominantes internos. Esta crise pandêmica veio por a olho nu nossas fraquezas, as maiores de todo o mundo. Nosso povo sempre foi cordial, não sentido expresso por Sérgio Buarque de Holanda:

subserviente. Não próspero e amável, como muitos que só viram o título de o “homem cordial”. Nessa subserviência reside o mal nevrálgico de todos os nossos problemas.

É uma tendência do homem procurar instrumentalizar o alheio, como se fosse coisa. Se, por conta disso, o dominado passa a ser um animal sofredor, desventurado, acostumado à fome, ao choro que já não escorre para fora das varizes de um esôfago seco, deseducado e sem cultura geral mínima, isso é problema deles, não nosso, que lhe damos algumas migalhas de sobrevivência. Assim pensam os senhores do poder dominial ou senhorial. Tudo lhes é propriedade e posse, a começar do homem. Seria utópico imaginar outro sentimento dessa casta superior igualmente inculta, pois não usa o dinheiro astronômico que possui para ser alguém mais ajustado ao mundo, com sabedoria, o que não lhes importa. Essa situação privilegiada somente os conduz a tentar fugir do ócio. É muito diverso o poderoso brasileiro do alemão, numa sociedade em que muitos homens cultos, mais ou menos abastados, segue a máxima de seu principal filósofo, Immanuel Kant: “olhe a seu próximo como um fim, jamais com um meio”. E também são subservientes, quando viajam ao exterior ávidos para falar seus idiomas. É uma tragédia não dar valor à sua própria linguagem, talvez a maior de todas, dizia Fernando Pessoa.

Se esse “ethos” era inevitável, não o era a submissão de nossas grandes massas populares. Quase nenhum povo do mundo se arrastou por tantos anos como o brasileiro. Nem mesmo nossos irmãos da América do Sul e de toda a América Latina, que não conseguem compreender como os brasileiros são tão cordatos, por quinhentos anos a fio. Como pode um homem dar-se a outro com tamanha placitude, é a interrogação pasma.

No princípio, era a maioria rastejante sob a corte portuguesa. Os que pretendiam alguma coisa, ainda que parca, deveriam ser amigos da Corte. Homens lúcidos, como os conspiradores da Inconfidência, tiveram o drástico destino que conhecemos. Outros, ainda que feitos répteis na maravilhosa cidade, iam semanalmente beijar as mãos do senhor obeso, com os bolsos da casaca cheios de frango assado, na esperança de que um beijo os salvasse. E o regente, feliz, ficava ainda mais realizado, crendo-se humanista, ao lançar de sua carruagem real os restos do que comia pelas ruas em que eram disputados pela ignóbil plebe.

O caminho da libertação começa dos meandros da classe média. Somente ela ainda dispõe de capacidade crítica e coragem para mudar esse país, tal como todos que gritam por mudanças.  E, na quebradeira física e econômica da crise, sabemos que esse segmento se pulveriza e se proletariza. O pior dos mundos possíveis, a ladeira que conduz implacavelmente à dissolução de um grupo social que não soube salvar-se, para “seculum seculoro”.

No momento em que esses meus velhos e claudicantes dedos acionam este computador, num dia de frio cortante, vejo na televisão um amontoado de sacos compostos de plásticos e tecidos velhos, formando uns pequenos morrotes: dentro deles estão humanos, famílias, crianças, homens e mulheres que não aparecem. Muitos têm seus fins determinados: a morte, como se não bastassem a da Covid-19.

As “autoridades” que decompuseram o direito do trabalho são cegas ou absolutamente insensíveis. Com uma penada de um tal de Deputado Marinho, hoje súcubo de Jair Bolsonaro, então totalmente desconhecido, foi destruída toda a legislação que, mal ou bem, dava algumas condições de felicidade aos trabalhadores brasileiros. Ao lado disso, para não ter-se protestos, cuidaram-se de liquidar os sindicatos, que hoje se encontram com portas fechadas. Muitos ilustres intelectuais não comprometidos com esse inferno creem equivocadamente que deve ser assim mesmo. No período em que os sindicatos foram atuantes o Brasil não chegou a esse ponto. É simples: garante-se o poder de compra dos trabalhadores, que jamais foram sustentados de mão beijada.

Terão esses homens que destruíram no Brasil um século de direito positivo do trabalho ideia de que os pratos de comida dos trabalhadores que passam a receber por hora, em trabalho “intermitente”, sem direitos coletivos, um mínimo de consciência de que, no pouco que esses pratos abrigam, há líquido, mas não se trata de azeite ou mesmo de um óleo de cozinha dos mais desonestos, mas sim lágrimas, no mais das vezes grossas dos trabalhadores e pais de família que se debruçam sobre o prato, para que sua família não perceba seu desespero?

Até quando cultivaremos essa doença social e o inverno de nossa desesperança? Tenho certeza de que essa subserviência não será tão crônica a ponto de jamais superar-se. Aguardem os iludidos por suas grandes posse o quase fim da pandemia para ver a explosão do Terceiro Estado brasileiro. Infelizmente, como toda revolução, que se dá pelo confronto, não pelos meios democráticos, tornará mais úmido este imenso território: de cor rubra esse líquido vindo das veias nos reservará um momento cruciante.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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Bruna Lyra Raicoski

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