Um bestiário na quarentena (I)

Em meio a uma pandemia assemelhada a uma tempestade incessante que toma todos os mares e oceanos da terra, provocando naufrágios letais, resta aos não vitimados o escapismo, para não se dissolverem os egos esmagados. Alguns próximos não deixarão seu mundo depressivo pela memória cáustica dos queridos que se foram, mas segue uma miscelânea dos estudos extravagantes de Borges.

Lembranças das fantasias dos homens para cruzar um momento trágico. No momento que meus dedos batem no computador, um gato persa morde e belisca os dedos de meus pés.

O príncipe Hamlet, o fantasma e a exalação do cheiro de podre no reino da Dinamarca. 

“A bao a qu”, letárgico no primeiro degrau na Torre da Vitória, desperta só para acompanhar o calcanhar dos visitantes. No último, se quem sobe é do bem, torna-se brilhante e azul.

Quando se vão, ela rola de volta ao primeiro para retomar seu coma. O capitão Burton relata a lenda em sua versão das Mil e uma noites.

Abtu e Anet guiavam o Barco de Ra, deus do Sol. 

A Anfisbena é a cobra de duas cabeças, como a chamam nossos irmãos nordestinos, e que povoam largamente o Brasil.

Os anjos de Swendendborg são sensuais e refletem nossos anseios na terra. Os pobres de espírito estão excluídos dos gozos do paraíso porque não os compreenderiam.

  1. s. lewis procurou um barulho no matagal e viu uma forma negra entre as ramagens.

Um grande cantor. Sentado como um cachorro, negro, brilhante. Apoiava-se sob as patas dianteiras parecidas com árvores adolescentes, os cascos largos como de um camelo. Enorme barriga redonda e pescoço de cavalo. O canto era de alegria. Olhos úmidos. Tímido e submisso. Queria ser para sempre um som para alegrar os humanos nos bosques inexplorados. Suas mães de leite se admiravam de seus cantos.

Kafka sonhou com uma grande raposa, de grande cauda e muitos metros de comprimento. Tentou por toda a vida, mas jamais conseguiu apalpá-la.

Poe sonhou com um medonho animal terrestre, escarlate, pleno de garras agudas e dentes também escarlates.

Platão aprovou a decisão do Demiurgo, que povoou a terra de animais esféricos. Compatíveis com a esfera do mundo. Mais de quinhentos anos depois, em Alexandria, Orígenes ensinou que os bons vão para a eternidade rolando como esferas.

Os reinos do homem e dos espelhos eram distintos, dizia o Padre Zallinger, morto em 1736 e seguido por Herbert Allen Giles. Esses reinos não eram, como hoje, refletidos e incomunicantes. Dialogavam e viviam em paz.  Uma noite o povo do espelho invadiu a terra. Perderam a batalha e foram encarcerados e condenados a repetir por todo o sempre nossas imagens.

Entre os seres metafísicos, só tinha um sentido a “estátua sensível” de Condillac. O olfativo, que percebia o aroma do jasmim. As faculdades do entendimento surgiram depois (amor e ódio). Atração e aversão.  A memória pródiga da estátua sentiu mais: o cheiro da rosa e do cravo. 

O cavalo do Deus Odim, que transportava os homens para elevar os castelos de Hedimburgo, um antílope de oito patas. Sobre patins velocíssimos, ninguém os alcançava. Tunk-poj os perseguiu por todo o firmamento, inutilmente. Perdeu-o em Inverness.  “Os homens, disse,  são cada dias menores e mais fracos. Como vão poder caçar antílopes de seis patas, se eu próprio mal consigo?”.

No sistema solar, um dos animais domésticos é o aplanador (Bodendruker), que presta serviços incalculáveis ao planeta Netuno. Tem dez vezes o tamanho do elefante. Parecem-se. De patas cônicas e muito largas, segue aplainando a terra para os pedreiros e construtores.

Falou Zaratustra do asno de seis patas, oceânico. Três cascos e seis olhos. Seu alimento é espiritual e todo ele é justo. Tem chifres que vencem e dissipam todas as corrupções dos malvados. É um dos auxiliares de Ahura Mazdaz (Ormuz), princípio da vida, da luz e da verdade. 

A ave Fênix, que sempre renasce. Não se deixa ver. O prazo de sua vida é mil, quinhentos e sessenta e um anos. Para outros é um ano platônico, o tempo em que o Sol, a Lua e os cinco planetas voltam à sua posição original.

Para concluir por agora, bahamut, numa tradição recolhida por Lane:

“Deus criou a Terra, mas a Terra não tinha sustentáculo e assim por baixo da terra criou um anjo. Mas o anjo não tinha sustentáculo e assim por baixo dos pés do anjo criou um penhasco de rubi. Mas o penhasco não tinha sustentáculo e assim por baixo do penhasco criou um touro com quatro mil olhos, orelhas, ventas, bocas, línguas e pés. Mas o touro não tinha sustentáculo e assim por baixo dos pés do touro criou um peixe chamado Bahamut, e por baixo do peixe pôs água, e por baixo da água pôs escuridão, e a ciência humana não vê além desse ponto.”

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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DE LEON COMUNICAÇÕES

Bruna Lyra Raicoski

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