Uma onírica viajem com Borges

O sonho foi de inverno e profundo.

Saímos de Buenos Aires pelo “Sur”

para ver o mundo de seu longo passado. 

Deixamos atrás as casas baixas e tristes.

Na esplêndida Recoleta ele esboçou um cumprimento

respeitoso e alegórico a seus amigos de outrora.

Elvira de Alvear, longo romance que no fim

foram vagos traços indecifráveis.

Impossível não ter presente Bioy Casares.

 À medida que sonhávamos ele recordava

o cheiro de chuva da Galiléia

e uma árvore que reverenciara na Ásia.

O Ganges e perguntou-me: que rio é este

que arrasta mitologias e espadas?

Falou-me de Cambridge

na desordem inerente aos sonhos

de Edimburgo que no norte foi Odim

e das sextas-feiras, o dia da divindade

que entretece o corpo dos amantes.

Sentira um antigo rumor de briga e guerra

e a América nos esperava em cada esquina.

Os caminhos do Ebreu, Cartago aniquilada, 

Inferno e Glória.

Nem Zeus desataria essas redes

de pedra que nos cercam.

O campo de outrem, o alvorecer dos potros.

Estávamos no Texas, mas a história que me contou,

era de outro Estado

de Murdoch e a biblioteca de Yale.

Sentamos numa pedra

e ele lembrou-me a glória da Ilha de Sheakespeare

e a aventura existencial de De Quincey.

Uma mulher que tinha fugido para Montevidéu.

Israel e Seu sangue percorrido.

Stevenson e o outro escocês, Andrew Lang.

A vizinhança de Virgílio.

Os cânticos sem pressa, porque a aurora demora a clarear

sem levantar a voz.

Campos de seus avós que ainda guardam

de Acevedo o sobrenome, o nosso, 

indefinidos campos que não podia imaginar de todo.

Os bibliotecários de Alexandria, exímios críticos literários,

perdurarão enquanto durarem os homens,

imperturbáveis, imaginários, eternos.

Com sua mulher traduziu Whitman, cujo grande eco

oxalá reverbere neste sonho.

Ao terminar de recitar os longos fragmentos

de um evangelho apócrifo,

perguntei da Islândia.

– Mas você já está na Islândia.

De repente a cheia de fé Andaluzia

seus laranjais mouros que decoram as praças e acolhem amores

terra onde se apreende a inextricável arte

de não fazer nada

e saber existir na vida vazia.

Paramos na estrada de Damasco

onde esperamos inutilmente pelas luzes.

Num átimo vimos as cúpulas da Rússia.

E ele contou-me dos bisões, às centenas,

que cortam qual trovoadas madrugadas rústicas.

E o que vinha do Sul, do Norte, do Leste e do Oeste,

até acordar-me no levante pálido e discreto.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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DE LEON COMUNICAÇÕES

Bruna Lyra Raicoski

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