O gato, o poeta e a eternidade

O velho poeta, que começou a versejar

na senectude sem queixas do destino

poesia meio filosófica, o atino

dos amantes do saber que ousam conjecturar.

Optou por dormir cedo e o conseguia

sem a tortura da insônia neurótica

para a derrear bastava uma torre gótica

a imaginar no cérebro sua condição de guia.

Ao amanhecer ele tinha uma companhia

mais fiel que a mais juramentada amante

um gato persa que ao nascer virou errante

e ele o acolheu em sua morada também tardia.

O gato amigo vinha mordiscar seus dedos

chamegava-os sempre ao raiar do dia

parecia saber que depois vinha a porfia

sem mais tempo para esfregar afegos.

Um dia o poeta conheceu grata teoria

podia esquecer a crueldade da morte

pois a ciência descobrira a eternidade

nenhum milagre, simplesmente a sorte.

A rotina das manhãs se tornou infinita

poeta e gato não mais esperavam a hora

em que se despediriam de toda aurora

para caminhar no vazio do vácuo da desdita.

Hoje quando os eternos miram os céus

veem entre seu aglomerado de estrelas

uma luz em forma de cometa de orelhas

o velho poeta e o gato que lhe afaga os pés.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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