Trabalho físico e intelectual

Ambos são companheiros inseparáveis da natureza de nosso trânsito terreno. “Ab ovo”, inteiramo-nos neste planeta de modo ativo. Os preguiçosos sempre pagaram alto preco. Com base nessa experiência, os homens ganharam uma de suas primeiras consciências.

É preciso domar as nossas necessidades à realidade bruta. Torná-la útil para nossa sobrevivência. Criar valores que se bifurcam em físicos e espirituais. De nosso adestramento resultam conforto e desconforto. Por milhares de séculos, buscamos o conforto, a felicidade, mas, não raro, a enfrentar inúmeros e indesperados desconfortos.

A ação ativa da humanidade começa na infância, em que os pequenos seres manipulam paus, pedras ou as sofisticadas invenções telúricas modernas. O objetivo é constuir, arrematar e construir castelos. Simbolicamente, a pequena casa útil.

Dessa nossa disposição vêm as conquistas; contra os ventos fortes, o frio cortante, o calor da indolência. Sempre são as criações, hauridas na matéria prima do mundo. E aí podemos dizer que nosso bem-estar não é burguês, no sentido deteriorado de aproveitador da sorte.

Nos primórdios, era só o enfrentamento físico. A caça, a pesca, a agricultura.

Logo a inteligência se pôs a serviço do físico. Interação dialética. Da caça imaginaram-se tática proveitosa. Idem da pesca. E a agricultura, que exigia onde e como semear. Animais inalcancáveis, era melhor a caça inteligente e fácil. Os peixes ficam mais acessíveis conforme o agrupamento de espécies nas estações do ano.

Se integram-se, não há motivo para dizer que um tipo de trabalho gera o outro. Ambos se complementam. A inteligência dá facilitações racionais às obras físicas. Mas, sem estas, a inteligência seria retórica, imagística e impotente. Baseado nessa razão básica, o homem como um todo criou tantas atividades quanto necessárias à vida.  E esta, como se apresenta, por ora, talvez seja a raíz da primeira civilização cósmica.

Já se observarmos a criação e a repetição diremos que aquela exige mais suores – intelectuais – do que a força mecânica de trabalho. Um médico, um advogado, um engenheiro, um físico, os pesquisadores de todas as áreas, dispendem mais energia que os obreiros. Estes, com uma refeição, repõem o que se denominou “força de trabalho”. Porém, não se confunda força com dispêndio de energia física. Não há força mais exigente que a do intelecto quando busca uma tese, uma ideia avançada, uma interpretação, em sua amplitude de métodos, dos fatos.

Para tanto, exige-se que esses intérpretes dominem, tanto quanto possível, a epistemologia (o estudo da formação do método nas ciências). Sem o método correto para devassar o íntimo dos fenômenos, dar-se-á com burros n’água. Ao passo em que o trabalho físico mal sucedido, poderá ser simplesmente repetido com acerto dos erros praticados.

Não nos inclinaremos a dizer, à luz da Constituição, que não pode haver distinção entre o trabalho físico e o intelectual. Há de ser assim, no campo normativo, que deve reger a média das ações humanas e, preferencialmente, sob o critério da isonomia. Em sociedade avançada e moderna, trabalho muscular e cerebral devem ser tratados com isegoria, temos dos gregos para identificar a igualdade, mas só para o patriciado.

Entretanto, o avanço mental está a superar o físico. As máquinas, os robôs, superam os homens de energia muscular, a ponto de nos pôr em terrível drama filosófico: como absorver a maioria dos trabalhadores braçais numa sociedade que cada vez mais os afasta do processo produtivo, substituído pela robotização?

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura

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