Um corpo morto

Um corpo morto é o maior mistério de todos os tempos. Talvez o desvendemos quando formos cadáveres. A ação policial em Paraisópolis, que um governador afortunado aplaudiu, pode ser considerada mais grave, pelos motivos que jamais se justificam, do que a invasão do Pavilhão 9, no Carandiru. Não importa o número, o que arrepia é fazermos precipitar um ser como nós no “nobille castelo”, que Dante criou em sua divina Comédia. Divina mais por ser a maior obra literária de todos os tempos, do que por ser “divina”, é dizer, “Comédia de Deus”, que não foi o móvel do poeta. Naquele momento Deus estava em Paraisópolis e foi a grande testemunha das atrocidades. Ele não interfere, pois nos deu o livre arbítrio, inclusive o de eleger um governo ansioso por sangue derramado, desde que quem o derrame use uma farda. E ainda não foi aprovada e promulgada a lei de exclusão de punibilidade para policiais. Como se alguém que mata, um dia, não fosse fazer companhia ao morto no nobre castelo. Como se alguém que morre não significasse o desaparecimento de uma ilha nesse imenso promontório em que vivemos.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros:“ Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura. 

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