Poder esquizofrênico

* Amadeu Garrido de Paula

Quem padece de esquizofrenia é merecedor de compaixão. E os cuidados médicos constantes são indispensáveis.

No entanto, o esquizofrênico não pode estar investido de poder. Isso porque a doença não distingue ambientes para manifestar-se. E, como implica em medo crônico de estar sendo atacado por toda a humanidade, resiste aos seres, imaginários ou reais, usando das poderosas armas inerentes ao poder.

Se se trata do primeiro cargo da República – a Presidência – a nação começa a deteriorar-se. O esquizofrênico comum imagina que o carro que trafega atrás é de um inimigo e, “per cause”, pode praticar manobras temerárias para fugir, colocando em risco todos os demais. Certas moléstias tornam a vítima incompatível com a vida em sociedade. Internado ou, melhor, restringido em atividades comunitárias, para não pôr em risco a comunidade, sua esperança é a avançada medicina de nossos tempos, mas, por óbvio, longe de poderes, principalmente das estatais. Nem mesmo uma pequena família o esquizofrênico pode conduzir.

Um dia é a imprensa, outro a esquerda, os comunistas, grupo de pessoas que dele discordam, as entidades sindicais, as organizações não governamentais e, o mais grave, dá-se quando a patologia faz imaginar que o pior inimigo é o Supremo Tribunal Federal.

Depois de surtar, o esquizofrênico cai em parte na real e tende a sublimar o ataque imaginário. Daí o transtorno bipolar. Cada dia com sua agonia, amanhã, ou em algumas horas, o padecente do desequilíbrio mental reconsidera e torce para que suas vítimas, assim como ele, esqueça as tragédias que engendrou.

Quando o decano do Supremo Tribunal Federal, homem de equilíbrio e de profundo conhecimento do direito a que se dedica, vê-se obrigado a sair em defesa da suprema instituição judiciária brasileira, e dizer que o presidente da República passou de todos os limites, a crise está deflagrada em seu grau máximo.

Imaginar-de leão feroz atacado por hienas não deixa dúvidas a nenhum psiquiatra. O choro íntimo e os gritos do esquizofrênico, no mundo atual, têm nas redes sociais o melhor meio de transmissão de sua voz, que exprime o turbilhão de um interior profundamente doentio.

Já fomos presididos por uma vítima de grave transtorno mental, que governou sob interdição informal, Delfim Moreira, o qual alternava momentos de insanidade com intervalos de lucidez. Deploravelmente, o insólito se repete, no século XXI. É o preço do presidencialismo, governança encarnada numa única pessoa por longo tempo – a duração do mandato; salvo se, malgrado a crise inevitável, o povo encare com coragem esse dilema terrível.

* Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros:“ Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.  Visite também o blog: www.amadeugarridodepaula.com.br.

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