Além do Rio da Prata

Se mover-nos a curiosidade pelo homem em sua determinação geopolítica, estaremos aptos a nos cotejar um pouco com os argentinos.

Enquanto malhávamos no centro do trópico, nas pradarias intermináveis da cana, do café, das minerações para os brilhos de Lisboa e do velho mundo, despejados nas praias os rastros de sangue, suor e agonia, deixados pelos navios negreiros, o extremo sul da América era a busca da civilização transliterada.

Depois de heroicas pelejas no século XIX que envolveram memoráveis cavaleiros sem medo, na guerra do Prata, em que pretendiam reinar soberanos Uribe e Rosas, este bem aquinhoado com o epíteto de “aranha de Palermo”, das quais não ficamos alheios, “los irmanos” de Buenos Aires sentiram-se os franceses e anglófilos das longínquas e geladas terras boreais.

O passageiro e admirável vendaval de cultura europeia que lembra os ricos Alvear, La Ricoleta, a urbanização verde e cativante e as aventuras intelectuais de Borges, Victória Ocampo, Ernesto Sábato, Júlio Cortázar, Liliana Budoc, Adolph Bioy Casares, Ricardo Piglia, Macedonio Fernández etc,  deram a impressão de um paradisíaco futuro no cone sul. Foram-se, entretanto, os despojos dos judeus, eles próprios e os europeus refugiados; as guerras deixaram de abastecer de material e de homens os espertos da Casa Rosada.

A nós, a plebe não titubeou em chamar de “macaquitos”, seres humanos desenraizados de suas moradas africanas, a ferro e fogo, para servir aos senhores do centro da terra. Ao não nos salificarmos como nação una e sólida, lançamos água benta sobre essa aleivosia vinda do sul, aperfeiçoada com nossos próprios preconceitos e exclusões.

Desprovidos de riquezas fáceis, resta ao homem o trabalho. Sua organização corporativa levou o nome de sindicatos, talvez a mais importante e aviltada das instituições.

Sujeita a supostos líderes que engordaram e se dessangraram espiritualmente. Somente entre os homens que trazem  gen do apodrecimento é bom que se diga. Os primeiros interlocutores de Obama em 2008, esclareça-se, foram sindicatos. Mas as batatas podres é que chamam atenção para os sacos. Tal como mujiques incultos foram sofregamente transformados em “sovietes”. E deu no que deu o socialismo ideal. 

O populismo é o mais triste e cinzento mundo da putrefação sindical. Perón, Isabelita, os Kirchner… Esperemos que os atuais tenham revisto valores fundamentais. Há boas razões para isso, em que pese a vice. Se ainda há esperança no sindicalismo mundial, as bactérias de seu âmago, preliminarmente, devem ser dizimadas. Conhecedores de heróis e honestos sindicalistas brasileiros, podemos alimentar essa esperança.

O caminho se abre à uma autêntica democracia social, na qual se irmanam, conscientes de seus direitos mas também de suas restrições, homens que não atacam a economia de mercado e necessariamente a alinham às liberdades políticas e à justiça social – em citação superficial e injusta por insuficiente, Mário Vargas Lhosa, na literatura, John Rawls e juristas do trabalho – única estrada que vislumbramos.

Amadeu Garrido de Paulaé Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

Esse texto está livre para publicação. Se precisar de  mais informações ou entrevistas entre em contato na  De León Comunicações:

Bruna Lyra Raicoski
Assessoria de Imprensa
bruna@deleon.com.br
(11) 5017-7604// 99655-2340

0 comentários em “Além do Rio da Prata”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *