O drama atual da Igreja Católica

Em matéria publicada no sábado 10 de agosto de 2019, no jornal “O Estado de S. Paulo”, o Cardeal-Arcebispo de S. Paulo, Dom Odilo P. Scherer,  denuncia as agressões e mortes desferidas contra padres católicos em todo o mundo. Especifica o assassinato do padre nigeriano Paul Offu, da Diocese de Enugu, o que motivou um “protesto bastante singular” dos padres daquela diocese, que saíram pelas ruas com paramentos exclusivos de celebrações litúrgicas.

O drama também está presente na África, nomeadamente no Quênia, na Tanzânia, em Mocambique, Burkina Fasso, Uganda e Ruanda. Os radicais muçulmanos atacam os católicos, assim como sua própria população, quando não adere à incandescência de seu radicalismo.

Daí extraiu o nobre cardeal, em nossa compreensão, que religião e política devem permanecer equidistantes; seriam vidas em paralelo, principalmente sob o aspecto da indevida instrumentalização das religiões por grupos desonestos.

Cita o articulista vários outros exemplos de tal perseguição pelo mundo, o que levou o Papa Francisco a condenar essa fúria persecutória como “genocídio causado pela indiferença geral e coletiva”.

Tal indiferença, todavia,  emerge, em boa parte, da orientação predominante na igreja católica de hoje e determinada por sua cúpula. Tomemos nosso Brasil que bem conhecemos como referencial desta modesta análise sobre a interpretação papal.

Tempo houve em que a igreja católica não se limitava às missas e outras liturgias. Procurava firmemente embrenhar-se no contexto popular. E, assim, ganhava muitos adeptos para sua judiciosa pregação bíblica.

Em momento em que este subscritor ainda não fora concebido, o catolicismo romano já se dera conta dessa necessidade de estar fincado nas entranhas do povo. Em meu povoado natal, ativavam-se com energia cívica as JOC (Juventude Operária Católica), JEC (Juventude Estudantil Católica) e a JUC (Juventude Universitária Católica), que posteriormente se unificaram na AP (Ação Popular). Minha mãe, em sua juventude, era participante ativa da JOC, de onde hauriu condições para ter uma correta visão política até sua morte. A Ação Popular, recentemente deturpada como se fora “um dos mais sangrentos grupos que atacaram os militares” pelo inculto ou falsificador Presidente Jair Bolsonaro, jamais abandonou os princípios cristãos de respeito à vida, às opiniões alheias, à paz entre os homens, enfim, aos postulados teológicos informadores do catolicismo. No momento da ditadura escancarada, um pequeno grupo dissidente da AP (APML, ou Ação Popular Marxista Leninista) trilhou o caminho da “luta armada”, sem o mínimo apoio das cúpulas eclesiásticas e de seu povo. Já não era mais religioso: basta ver a incompatibilidade fulcral entre o marxismo-leninismo e os católicos, muitos dos quais foram aos “paredões” de Fidel Castro. Além disso,  a APML permaneceu enfurnada, não se podendo comparar sua conduta aos atos de enfrentamento da Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighela, ou da Vanguarda Popular Revolucionária, de outro capitão, Carlos Lamarca.

Sob a ditadura militar, o saudoso Cardeal-Arcebispo de S. Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, criou a então conhecida “Comissão de Justiça e Paz” da Arquidiocese de S. Paulo. Seu nome esclarecia muito bem suas finalidades. Advogados a ela aderiram, para buscar a justiça, assim como médicos, sanitaristas etc, para fomentar a “justiça social”, ferramenta elementar da paz.

Ainda nessa época, criaram-se as “comunidades eclesiais de base”, organizações populares que se engajavam na busca dos anseios comuns de equidade social.

Esses vínculos da religião com o povo e, por conseguinte, com a política, tiveram vida longa e vitoriosa em muitos episódios. Salvaram-se vidas de encarcerados e de esfomeados. Sem nenhuma dúvida, os entes vinculados à Igreja Católica foram um dos pilares inteligentes de resistência ao governo ilegítimo dos militares, muitos dos quais eram católicos e se sentiam sem conforto ante as atrocidades praticadas pelo governo despótico e – esse sim – sanguinário.

Provavelmente em razão das correntes múltiplas e conflitantes que povoam o Vaticano,  transformaram-se negativamente as organizações religiosas e populares em todo o mundo. Se as ideologias ainda servem como mero método de análise, as direitistas “Tradição, Família e Propriedade” e a “Opus Dei” combatem, no interior do Estado Católico, as denominadas “correntes progressistas”.

Ao lado de escândalos financeiros que envolveram o Banco do Vaticano e corruptos do Estado Laico, João Paulo II assumiu o comando com a ingrata tarefa de moralizador e pacificador. Ao empreender condutas conciliatórias, terminou por não mais estimular o engajamento do povo em ações políticas, inevitavelmente conflituosas.

Em nosso país, dizimaram-se as entidades populares e o catolicismo se limitou ao culto de cúpula. Concomitantemente, cresceram em grande número os movimentos evangélicos, que têm a superioridade pragmática de propor a riqueza e a felicidade nesta vida, não acenar com uma vida eterna duvidosa e perdida no mar das hipóteses.

Propõem-se os milagres imediatos, as curas das doenças, a superação das angústias econômicas e, nessa toada, passam a superar em número de adeptos os homens que necessitam de crenças e de fé para sobreviverem neste mundo de belos jardins, mas predominantemente de trancos e barrancos.

Possuem uma bancada que domina a política nacional, em sua forte capacidade de expressão no Congresso Nacional. Ao lado de outras bancadas, que representam corporações e não o povo brasileiro. O governo central é o poderoso instrumento dessa representação enviesada e dos interesses transcendentais pelo bem comum.

Os cultos religiosos se compatibilizam, nada obstante a diversidade de seus métodos e seus fins. Não assim as ações dos radicais do discurso antirreligioso, que promove o discurso sectário de dizimação do povo crente e conduzem as multidões a estelionatos de todos os tipos, sendo o mais grave o de natureza eleitoral. E as pseudorreligiões. Em sua obra magna “Civitas Dei”, Agostinho opõe a “Cidade de Deus” à “Cidade dos Homens” e muitos de seus interpretes atribuíram predomínio a esta, com seus desacertos e ódios disseminados.

Fazer política não é tomar o Estado laico, a moeda de César. É participar de modo crítico e construtivo de uma nação. Se opto por morar num lugar isolado e afastado das populações, estou sujeito, por evidente, a ataques de bandoleiros – indefeso.

A Igreja de Roma só recuperará sua força conquistada no século IV ao superar o estresse interno do Vaticano e, concomitantemente, voltar a reunir-se organizadamente com o povo.

Amadeu Garrido de Paulaé Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

*Para ler mais textos do autor, acesse o Blog Amadeu Garrido de Paula.

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